domingo, 30 de dezembro de 2012

Aqui é o melhor lugar do mundo, é onde eu posso me esconder quando tudo lá fora me prende e sufoca. É o meu quase paraíso, e sei que qualquer hora Alice vai me encontrar por aqui. Nem a música, nem as folhas, nem o sol nem a dança me preenche e conforta tanto assim. Essa tela branca, as letras e as infinitas palavras soltas num mar rosa clarinho me permite sentir viva. Aqui, e só aqui, é que consigo fugir de um mundo que me perturba e me nega. 
Hoje foi um dia terrível, sem paz sem pais sem amor e sem vírgula de tão atropelado e mal feito que foi. Mas já no fim da tarde, quando o meu corpo esmigalhou e finalmente entendeu que não havia escapatória, eu sabia que algo iria me acolher. As palavras são minhas melhores amigas, mas não são todas, são aquelas que tomam conta do meu dedo e se eternizam aqui. Essas sim me acompanham e sabem o que passa dentro de um corpo quente quando ouve um não, quando não é correspondido, quando se sente sozinho ou lotado demais. A ponta dos meus dedos de alguma forma tomam vida e sintetizam, às vezes de forma simplória, o turbilhão sentimental que vive aqui dentro. Como fizeram agora...

sábado, 22 de dezembro de 2012

As comemorações silenciosas e discretas são tao sinceras. Ontem de manha, falei baixinho, como se pudesse sussurrar no meu próprio ouvido: '' Eu consegui''. 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

É só pensar na saudade que meu peito logo estoura. Te quero em casa, agora e com presa. Sem dor nem desculpas, hoje eu sou sua por completa. Mas se você não vem eu viro água salgada, me desfaço no chão, triste triste. E isso acontece e repete, fico fina e vazia. Quem me enche? virei água...

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

" Podias ter-me dito que ias sair da minha vida. A paixão é mesmo isto, nunca sabemos quando acaba ou se transforma em amor, e eu sabia que a tua paixão não iria resistir à erosão do tempo, ao frio dos dias, ao vazio da cama, ao silêncio da distância. Há um tempo para acreditar, um tempo para viver e um tempo para desistir, e nós tivemos muita sorte porque vivemos todos esses tempos no modo certo. Podias ter-me dito que querias conjugar o verbo desistir. Demorei muito tempo a aceitar que, às vezes, desistir é o mesmo que vencer, sem travar batalhas. Antigamente pensava que não, que quem desiste perde sempre, que a subtração é a arma mais covarde dos amantes, e o silêncio a forma mais injusta de deixar fenecer os sonhos. Mas a vida ensinou-me o contrário. Hoje sei que desistir é apenas um caminho possível, às vezes o único que os homens conhecem. Contigo aprendi que o amor é uma força misteriosa e divina. Sei que também aprendeste muito comigo, mais do que imaginas e do que agora consegues alcançar. Só o tempo te vai dar tudo o que de mim guardaste, esse tempo que é uma caixa que se abre ao contrário: de um lado estás tu, e do outro estou eu, a ver-te sem te poder tocar, a abraçar-te todas as noites antes de adormeceres e a cada manhã ao acordares. Não sei quando te voltarei a ver ou a ter notícias tuas, mas sabes uma coisa? Já não me importo, porque guardei-te no meu coração antes de partires. Numa noite perfeita entre tantas outras, liguei o meu coração ao teu com um fio invisível e troquei uma parte da tua alma com a minha, enquanto dormias."

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

As coisas vão se perdendo num mundo paralelo o qual eu queria ter alcance. Os cheiros, os gosto, as vontades... tudo se perde, inclusive eu de você. Sem faísca no toque, sem pressa pro beijo, e esse já tão seco sobra tanto nos meu lábios. Insistimos. O café já não me parece tão bom, e, até mesmo suas melhores especiarias hoje me amargam a boca. Não falamos há tempos a mesma língua, e aos gestos tortos e olhares confusos, vamos levando na mão um coração quase sem vida.
Minha garganta dói, gritei o seu nome a madrugada inteira mas você não veio. As borboletas já cansaram de esperar a hora de bater nas paredes do meu estomago. Moles, sem vida e sem surpresas elas caem triste num rio que dói menos que nós dois.
Fui toda sua, hoje talvez nem metade. É que tudo aquilo que você era dentro de mim se evaporou e evapora aos poucos a cada falta de jeito, de toque, de encontro...
Brigo com meu corpo desajeitado e tento me convencer que a culpa não é minha, só dessa vez.



domingo, 28 de outubro de 2012

Nunca existiu.


Triste fim. É preciso ser muito forte para dizer não, para dizer : - Chega; é preciso ser forte para se amar. Amá-lo foi fácil, aliás uma das coisas mais simples e grandes que eu já fiz. Não há remorsos. Tímido e  lentamente o coração vai se esvaziando, e aquilo que um dia foi amor vai embora. Não tenho pressa. Quero que alguma parte dele fique comigo, mas sei bem que tudo isso vai se perder num vazio enorme, e que acordarei assustada e  chorando no meio de uma noite quente, sem ao menos lembrar o seu nome.
A ausência ocupou espaço demais em nossas vidas. Apesar da grande tentativa de preenchimento acabamos por ficar ocos. E no fim, o que me serve de abrigo são as longas noites silenciosas de agosto; úmidas e frias E afundada nessa cama, penso em nós como algo lúcido. Quero dizer, tentamos enquanto pudíamos, e enfim jogamos a toalha. Mas isso esta longe de ser uma derrota, mesmo que o coração demore a entender.
Já tentei mudar alguns hábitos, e o cheiro da casa vazia não me tormenta tanto como antes. Evito olhar para objetos que ninguém sabe direito a quem pertence, talvez pertença a algo que jamais existira novamente. E andando por essa casa, entre um ou outo momento de melancolia, tento  me concentrar no quanto fomos bons um ao outro apesar de tudo, e como no meio de tanta turbulência conseguimos descobrir algo especial.
Não como mais, não há vontade para isso, minha fome agora é outra. Queria dormir um sono que curasse tudo, que acalmasse meu coração. Não é fácil. Em noites como essas penso em como deve bater seu coração, me pergunto se ainda dói, ou se um dia doeu. Me pergunto se na euforia da nossa inocência ele realmente acreditou que existíamos, se acreditou que eramos feitos para amar. Eu acreditei.



“No íntimo, sabe muito bem que este seria o único comportamento razoável, mas a dor não quer escutar a razão, ela tem a sua própria razão, que não é razoável.” 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

quarta-feira, 26 de setembro de 2012


“Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez, outras


 mais lentamente. E eu me pergunto se viver não será essa espécie

 de ciranda de sentimentos que se sucedem e se sucedem e deixam 

sempre sede no fim."

domingo, 23 de setembro de 2012


Quanto tempo não me controlei? Sei que daqui a alguns minutos irei falar contigo. E minha mente entra em convulsão ao pensar que eu posso novamente sentir o gosto do desleixo. O que eu queria era construir tudo aquilo que construímos antes, para que dessa vez, eu fosse a culpa. Queria ser a pessoa responsável pelo seu choro de madrugada e a falta de apetite matinal. Queria fazer parte da sua falta de criatividade e concentração. Queria morar dentro de você. Melhor, queria parasitar dentro de você para que a cada dia você se sentisse mais fraco e cansado. Perdoe por tanta sinceridade, mas queria que você morresse aos poucos.
há quanto tempo não sinto isso? E, mesmo depois de meses esse sentimento ainda me causa incomodo. Você é a personificação da pedrinha que habita meu sapato. Dói, mas de tanto doer eu acostumei. Sei que sou auto-destrutiva e só isso justifica minha vontade incontrolável de falar com você agora, só isso justifica minhas mãos suadas e tremulas. É que no fundo eu acredito que será diferente. Acredito que dessa vez serão os seus joelhos que ficarão cansados de tanto ralar e pedir perdão. Será tua garganta que agora ficará ríspida, sera teu travesseiro que se afogará.
Falei com você, e estou a ponto de explodir de arrependimento e auto-compaixão. Onde será que uma menina como eu guarda o amor próprio? Enfim, tantas outras pessoas já devem ter passado por situações vexaminosas que as paixões nos obrigam a passar. É como se nos faltasse uma alavanca do bom senso, como se que por segundos seu cérebro te desse uma brecha para agir como demente, e foi isso que ocorreu.
Mas tudo ok. Sou hoje uma mulher madura e independente que, não precisa mais dos consolos de uma falso amor para ser feliz. Não cairei nas suas palavras mansas e maleáveis, por mais que eu queira. Mas mesmo com minhas lutas internas fica difícil não entrar nesse seu jogo que eu tanto conheço. Você vem me chama de linda, e promete um paraíso perdido e eu vou amolecendo, ficando cada vez menos rígida e por alguns minutos até esqueço tudo o que eu já passei por você.
Mas daí você me conta que sua vida tá maravilhosa, e que desde que a gente não se fala você cresceu muito e viajou muito e tá muito feliz. Enquanto eu ficava aqui me armagurando, e ainda tenho restígio de tanta margura que emponderam-se do meu corpo, e você permanecia vivo desfrutando-se do seu desapego. Como te odeio. Como é ruim estar pior que antes, numa vida estagnada e  dependente de livros e textos e falsos interesse. Você me conta feliz como sua vida está diferente, enquanto eu, tentando engolir o choro, conto uma ou dua mentiras que sejam capaz de cobrir minha vida tristonha, para que pense que eu também venci.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Quantas dores gigantes cabem dentro de uma pessoa tão pequenina como eu? Infinitas?

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Não há nada a ser escrito além das tortuosidades que engolem o mundo, mas hoje não. Hoje, queria poder me abstrair de todas as dores e questões políticas, queria pensar que minha vizinha é feliz apesar de tudo. Queria pensar que quando eu fechar os meu olhos, todas as crianças do mundo estarão de barriga cheia e quentinhas como eu.
Será que é egoísmo? mas o que mais eu posso fazer além disso? atravesso a velhinha, mas ela ainda usa bengala. Dou um trocado, um tempo ou um cobertor mas a dor continua. Não posso servir de abrigo, eu não dou esmola mas sim meu corpo. E eu não posso abraçar o mundo, mas eu queria, como queria.

sábado, 15 de setembro de 2012

Apesar de tudo eu pude me sentir forte. Apesar de tudo eu consegui chegar bem em casa, consegui acordar cedo e consegui abrir sozinha todos os potes que você possa imaginar. Apesar de tudo, eu tomei coragem de cortar o cabelo e jogar fora coisas velhas, inclusive você. <3

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

História meio Torta

Fico surpresa quando faço as contas e percebo que estamos juntos a quase 20 anos, e assim tento não me manter saudosa, mas não consigo. Escuto seu sorriso na casa, seu lindo sorriso ao me ver, e me pergunto para onde isso foi, para onde nós fomos...




Hoje está um sábado lindo lá fora, e estou sozinha em casa contando as gotas na parede, amando tristemente meu cachorro no tapete da sala e ouvindo qualquer coisa na televisão. Está tudo certo. Penso essa frase com muita força e tento inutilmente convencer-me disso. Fui avisada que não há formulas, que as coisas esfriam e se empobrecem, mas o fato é que eu nunca quis acreditar nessas revistas Cláudias que acham que todo relacionamento está fadado ao fracasso, a não ser que a gente seja uma super-heroína. - Eu não sou. Resmunguei baixinho picotando um pedaço qualquer de papel. Levantei o rosto num ato-reflexo, com medo de que alguém pudesse ter ouvido meu pensamento, mas lembrei que estava sozinha. Sozinha não, havia o Fred deitado no tapete da sala, que também me amava tristemente.
Enquanto escutava um barulho perturbante da geladeira, tive a ousadia de perguntar a mim mesma por onde será que ele andava quando sumia de casa? Quero dizer, não que eu achasse isso ruim, se existisse algum lugar cujo eu pudesse sair para fugir daqui, eu também fugiria. Mas de qualquer forma, quando ele está aqui a casa também é vazia. Ele tornou-se só um vulto quente que dá-me bom dia, e vez ou outra um beijo na testa. Vez ou outra. Talvez esteja sendo um pouco otimista.
Não posso mentir, passamos bons momentos. Vimos juntos quase todos os filmes da década de 90, lemos alguns livros assim também. Lembro do nosso primeiro encontro oficial, Jorge contava as moedas para comprar dois cachorros quentes, e quando enfim comprou, eu lhe disse que perdera a vontade, pois o nome me remetia a um cachorro, uma coisa viva que agora estava ensalsichada no meu pão. Ele deve ter me achado uma idiota mimada, mas não falou nada. Comeu os dois cachorros lentamente, fitando o horizonte e talvez indagando porque raios teria me chamado para sair. Mas, desde de então estamos juntos e não ficamos separados nenhum dia se quer. Estudávamos em faculdades diferentes e em períodos diferentes mas dávamos nosso jeito. E que jeito. Quantas aulas minhas jorge assistia entediantemente só pra ficarmos mais tempo juntos,e quantas corridas individuais eu fiz pra pegar o ônibus e chegar antes de bater o sinal.
Depois de tantas memórias, até questiono-me se sinto mesmo raiva de Jorge. Mas ele torná-se indiferente a tudo, e principalmente a mim. Jorge deixou de acreditar na gente, e agora que me permiti pensar, acho que deixou de acreditar faz tempo. Nunca mais conversamos sobre ter filhos, e a essa altura não adianta muita conversa pra pouco óvulo e nenhuma disposição. Depois da nossa última tentativa frustrada, sinto que Jorge afastou-se de mim, numa espécia de tempo-para-curar, mas ele nunca mais voltou. Tento não pensar muito nisso. E não quero entrar na neutra dos 40, sem filho, sem carinho e desesperada. Digo, não quero entrar de novo.
Algo nessa mistura de saudade e rancor começou a corroer-me, porque na verdade o Jorge tornou-se um ingrato. Dediquei tudo a ele. Briga com a família, empréstimo, essa casa, esse cão, tudo eu e minhas lutas. Todos esses anos fazendo a melhor comida, tentando inovar no domingo e vendo videos no youtube para emagrecer. Cortei o cabelo e ele não reparou. Eu reparo até como ele dobra os punhos da camiseta; calor demais de 4 a 6 dobras, quando não 1 ou 2. Eu perdi minha vida dedicando-me a Jorge. E ele soube disso, e ainda sabe. Fez com que eu me empobrecesse aos poucos com suas ausências, falhas, relaxos. Para que eu enfim pudesse me tornar um pedaço de carne fria estirada no sofá.
Nunca fiz segredo que apesar de toda essa pose autônoma, eu queria mesmo é ser cuidada, ganhar atenção e colo no mínimo o tempo inteiro e foi isso o que ele me oferecera por alguns anos. Até saber que eu estava definitivamente entregue, até garantir que minhas barreiras estavam porosas e inofensivas. Nunca mais me deu reciprocidade quando soube que estava nua de alma, quando soube que eu não o deixaria por nada. A não ser pela solidão.
Levantei e vim para cozinha fazer um chá de limão e gengibre, desses que minha mãe fazia quando eu estava doente. Penso que talvez eu esteja doente, inventando um monte de histórias na minha cabeça que só me trazem tristeza. Fred veio comigo, e parece me olhar como se soubesse de tudo isso, como se concordasse comigo, e piedosamente me lançava um olhar de consolo. Talvez eu esteja exagerando, mas é que já são seis horas e nada do Jorge aparecer aqui. Pois então está decidido. Quando ele aparecer, tratarei de ter uma boa conversa com ele. Espero apenas que ele não esteja cansado demais, e que não suba para dormir antes mesmo de eu conseguir suspirar.
O chá está pronto. Ao pegar o bule, percebo que minhas mãos estão ficando enrrugadas, nunca havia reparado nisso. Algumas pintinhas sim, mas as rugas não. Ponho o chá na mesa e proponho comigo mesma uma auto-análise sob meu corpo, aquilo que tenho evitado a nem sei mais quanto tempo. Tudo bem. Continuo magra, mas minhas pernas estão moles moles, e o que era pra ser músculo agora é preenchido por buracos. Bom, mas não importo, Jorge sempre achou meu corpo lindo. Ou será que ele achava meu corpo lindo? Será que essa flacidez o desinteressou tanto? Mas ele nunca foi de ficar interessando-se pelo físico, sempre priorizou a mente, o interior. Lembro que disse que apaixonou-se por mim porque eu era "divertida e inteligente", viu em mim alguém que parecia acreditar realmente no que defendia, e que achou-me linda quando discuti com um babaca numa palestra de psicologia.
Então eu não sou mais fiéis aos meu ideais? tornei-me monótoma? Estou tremendo, e pensando coisas as quais eu jamais me permiti. Então, será que ele encontrou alguém? Isso explicaria tudo, alguém mais jovem, mais vivo, ainda crente nos ideias e achando que vai mudar algo na porcaria do mundo. Jorge seria capaz de fazer isso, ainda é bonito, não tem essa pele cheia de pintas e essas rugas como eu. Além do mais é professor de uma universidade, quantas aluninhas não ficam esfregando-se nele por admiração?
 Certo dia uma delas veio aqui. Clarice. Linda, com um sorriso enorme, cabelos negros e lisos e uma energia que cansou-me. Queria a opinião de Jorge sobre uma pesquisa, qualquer coisa assim. Ficaram horas conversando no escritório dele, enquanto eu lia qualquer coisa sobre comportamento infantil. Quando Clarice finalmente foi embora, Jorge desceu as escadas e foi rumo a cozinha. Chamou-me para conversar e estava animado, falando alto sobre a pesquisa da moça enquanto eu de cara levemente azeda fingia algum tipo de interesse, até que ele beijou-me de repente. Assustei-me. Logo o beijo foi tomando forma, daquele que não dávamos a tempos, e fizemos amor ali mesmo no chão da cozinha. Lembro de ter pensado "Que chão frio, e que saudade desse corpo quente". Ficamos ali por algum tempo, trocamos uma ou outra palavras engraçadas até que Jorge decidiu levantar-se para tomar um banho, e acabou dormindo pelado na cama.
Agora eu estou aqui, pisando no mesmo chão frio, dessa vez sem ninguém para aquecer. Acho que estou entrando em crise, e não é uma dessas que estampam capas de revistas. É a minha crise. Nunca entrei tão a fundo na minha memória, nunca me permiti questionar minha relação. Estou triste, e espero que Jorge não me veja assim quando chegar, se chegar. Pego minha caneca e lentamente deito ao lado de Fred, que já está quase dormindo. Talvez esteja cansado dessa eterna melancolia de sábado.
Olhando para esse piso e essa parede é fácil explicar porque esse ar triste propaga-se tão rápido. Tudo nessa casa é cinza, escuro, falta luz. Tentei convence-lo disso, propus uma pintura em toda a casa com cores de verdade. Mas logo ele inventou uma desculpa, talvez por preguiça, e logo esqueci do meu plano. Pensando bem, tudo que eu propus a Jorge ele conseguiu dar um jeito de articular-se para que me fizesse esquecer...Involuntariamente fui tomada por uma vontade enorme de chorar, meus olhos estão cheios de água, tentei engolir o choro como muitas vezes fiz. Não consigo, e sou tomada por um enxurrada de água salgada.
Agora, um pouco mais leve, seca e tranquila, decido fazer algo para comer. Afinal, quando ele chegar em casa estará com fome. Pensei em fazer uma torta salgada, mas isso faz-me lembrar restos. Decidi então fazer uma torta de amora, que era fácil e lembrava algo alegre. Quando enfim termino de esmagar as coitadas das frutas, ouço um barulho na porta, Jorge finalmente chegou. Está animado hoje, me cumprimenta com um beijo meio apertado na testa e senta na sala. Aviso docemente que tenho uma surpresa pra ele, e depois de alguns minutos o chamo para a cozinha. Jorge fica feliz e deu-me um beijo na bochecha dizendo que estava mesmo com vontade de amora. Alimento o Fred que nos olhava enciumado e pego um pedaço para Jorge. Dá a primeira garfada e automaticamente diz que está ótima, mas ao poucos me lança um olhar confuso e balbucia algo inteligível. Jorge não conseguiu terminar a última garfada, caiu morto no chão frio da cozinha, junto a Fred.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Eterna


Sou um pouco suicida, um pouco auto mutilante, um pouco homem bomba. Um pouco porque não morro, mas o estado de espírito o qual eu me encontro agora é quase sinonimo da morte. Esse cansaço e a eterna corrida. Essas dores e a eterna disputa pelo melhor lugar. Esses livros, esses conhecimentos que só servem para embrutecer-me cada vez mais.
Talvez o urubu seja eu. Talvez a carniça seja eu. Talvez as vozes e os trilhos sejam eu também. Eu sou tudo isso que me destrói. Eu sei que eu mato-me, mas eu não sei fugir do meu âmago, eu não consigo sair de mim quando quero, quando preciso.
A bolsa anda pesada e a cabeça também, e concluo que meus textos só fazem sentido assim, quando me canso demais, quando a vida fora do papel e da caneta azul não faz sentido. E não ligo se escrevo bem ou não, ou se há concordância ou coerência. Esse é o único, com ênfase no único, local que não me cobram e eu não me cobro. Escrevo quando transborda, quando eu quero, quando me canso de respirar. Escrevo agora.
Como essa junção de palavras que antes eram letras e que antes eram traços e que antes eram nada pode ter tanto significado? São responsáveis por toda essa dor, serão responsáveis por uma alegria que virá. Elas deram meu nome, meu endereço e as vezes não significam nada. As vezes. Porque quando querem, me rebaixam, me humilham, me transformam em pó. Quando querem, me exaltam, me glorificam, e me tiram das cinzas. Mas hoje elas não querem.
Qualquer gesto que eu fizer hoje será triste ou impaciente. E qualquer tentativa de fuga a realidade, será em vão. Reconheço estar fadada a essa luta, a essa eterna não reciprocidade com a vida. Esse eterno dar e não receber, se importar e ficar ao desdém, amar e receber migalhas. Triste fim para quem apesar de tudo, não deitou no chão da sala esperando a morte. Triste fim para quem fez mas do que poderia, e nada do que realmente queria.
O problema, é que aqui em São Paulo, no Brasil, no mundo e dentro de mim não existe mais a fuga. A Alice esqueceu-se de mostrar o caminho, o Peter não veio me buscar, nem ninguém me acordou com um beijo.
Corpo cansado-cansado, tendendo ou ao tédio ou a desesperança.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Mais um pra você

Faça-me sentir de novo o que significa ansiedade. Conheça novamente meu corpo, meus segredos e desejos, porém dessa vez, não se canse. Ainda quero como antes o nosso beijo apertado sem pressa sem mágoa e sem virgulas de tão jovem e inconsequente. Queria poder sentir de novo minhas fiéis borboletas no meu estômago tão cheio de hematomas. Eu sei que você ainda consegue fazer meus pelos que hoje estão serenos se arrepiarem. Sei que consegue me fazer desejar seu cheiro mais do que qualquer outro aroma. Sei que consegue me entorpecer somente com o olhar.
Mas falta tanto agora. Falta você, quando não, falta eu ou falta a gente. Falta a gente e nossa vontade. Falta a fala e nosso toque, nossas pequenas preocupação e cuidados. Falta tudo. Menos a saudade. Sobra saudade. Sobra a falta de você aqui para me servir de abrigo quando todo mundo está dormindo e cansado demais. Sobra os espaços vazios que eram preenchidos com nossas pequenas utopias. Os vazios do seu abraço, da sua mão, da sua voz.
Quero você de volta, mas eu quero inteiro. Nem que chegue aos pedaços, que chegue tímido mas que venha e que traga de volta um pouco daquela palpitação. Que traga de volta nossa pequenas surpresas, porque sei que não descobrimos tudo. Porque sei que não descobrimos nada.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

"E não estou certo se essas lembranças serão boas. Ou seriam boas, lembradas hoje, você me entende? Porque o tempo passado, filtrado na memória e refletido no tempo presente - agora -, parece sempre melhor. E terá mesmo sido? Apenas, quem sabe, porque não havia fadiga lá".

(Caio F. in: A vida gritando nos cantos. Crônica: "Pra machucar os corações". Ed. Nova Fronteira, p. 17)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Medos

Fico muda e ninguém se mexe, desligo a tv e não ouço nada, mas quando fecho os olhos eles aparecem. Estupram minha boca e meus ouvidos, até que enfim estão dentro do meu corpo. Não há o que fazer. Eles quebram uma a uma as janelas da minha alma, arranham com os dentes a parede da casa da alegria. E zombam, como zombam dentro de mim.

Só quando o sol finalmente aparece e quando meu corpo esmigalhado anuncia o último suspiro, eles vão embora. Porém, noite ou outra algum deles acabam por ficar aqui dentro, e vivem em simbiose com meu corpo, vivem em parasitismo com meus órgãos e mente.
Temo que não haja mais escapatória, temo que meu corpo já esteja a ponto de ebulir. A cada invasão violenta torno-me ainda mais fraca, fazendo de mim um pedaço de carne sem luta. Pergunto-me - Por que eles? E por que não a morte?

Seria esse um sono triste, mas no entanto longe de todos esses medos que me assombram e que pouco a pouco corroem meu corpo.

sábado, 25 de agosto de 2012

Caia a noite, e caia também o nosso amor. Não que só reste o tédio, temos um bilhão de coisas lindas, mas o que sobrepõem tudo isso é o Cansaço.
Palavras ríspidas e perdões imediatos tendem ao desgaste do coração. Assim como os choros longos de madrugadas, palavras pela metade e as permanentes incorrespondências. Enfim, decidi-me. Não há razões para sustentar um amor tão pesado e melancólico. Erramos. Sabíamos que estávamos errados, pois tudo que é veloz e desnorteado, ou bate em algo ou perde a força. Penso que perdemos a força, a vontade. E assim, calado e sútil você se perdeu de mim.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

" and we're changing our ways, taking different roads"

Só amor não basta. Conclui ouvindo uma das nossas músicas favoritas, Love will tear us apart. Nossa música favorita se tornou nossa realidade, e eu queria, e eu tentei, e eu pedi para não ser assim. Talvez minha busca incessante por nosso dia perfeito como o Lou reed nos anunciou, tenha feito disso tudo uma porção de ilusões facilmente derrubáveis. Que hoje desmoronaram. O que vivemos de realidade, sem todas as minhas longas utopias, me machuca, doí e só mesmo um refrão choroso poderia traduzir.
"-Te amo, e isso deveria bastar." Quantas vezes debulhando em lágrimas não te disse isso? Porque pra mim é difícil aceitar que um coração que tem tanto-tanto-tanto pra dar não possa receber nem metade. Não consegui ter o que queria, o que eu pedia. E, só amor não basta.
Minhas urgências e suas ausências, tudo se mistura num copo sem fundo. No fundo, eu sei que não temos mais chances, e que a única escapatória seria a amputação. Mas quem abriria mão de um braço ou uma perna sem antes ponderar? Mesmo que sofra, mesmo que o órgão a ser retirado libere todos os dias altas doses de veneno. E foi assim, adiando minha dor que você apodreceu em mim de tal forma que nem ao menos consigo te tocar.
Peço em agonia que mate logo, peço que tire isso de mim de uma vez só, porque sou fraca e não aguento. Meus olhos tão cansados e tão covardes se fecham lentamente, como se fosse o último pedido. Não consigo me lembrar de nada do que a gente foi um ao outro além de meros suportes. Você foi além de tudo um grande tampão pra que minhas tristezas não vazassem pelos olhos, boca e ouvidos.
Só o MEU amor não basta. O seu vem como um consolo. Amor a preço de lágrimas, a preço de preces. Nosso amor aos solavancos, travou. E já está tarde demais, e eu já estou cansada demais para empurrar mais uma vez um peso que deveria ser nosso, um peso que deveria ser leve.
Finalmente, nosso amor se resume num texto triste, escrito de madrugada enquanto não nos sobra nem a sobra de esperança. Tão tarde que seus olhos se escureceram e eu me ceguei. Tão tarde que já esqueci quem fui e esqueci algumas grandes partes suas. Quem me dera fosse tarde pra sempre. Porque de manha, tudo parece suportável, maleável e esperançoso. De noite a realidade acha nossos olhos pra um mundo tão nosso que assusta.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

" Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final...
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.
O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora...
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor.
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.
Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és..
E lembra-te:
Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão"

( Fernando Pessoa )

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


Quando criança estudei pouco, falei pouco mas pensei muito. Por de trás de todas minhas roupas apertadas e meias longas havia um pedido silencioso de socorro o qual ninguém pôde ouvir. Foi sim uma infância normal, e hoje acredito que nenhuma criança que viveu como eu, foi de fato feliz, mas nem por isso deixou de ter uma infância de porta retrato.

Vivia sufocada, e ainda tão nova tinha segredos que até hoje me arrepiam. Talvez tenha sido aí o ponto. Desde muito cedo suportando um peso que não era meu. Essa agonia de agora, me trás a face triste de antes, o cansaço de agora trás o corpo de antes, e tudo, tudo, tudo me cala.

Riscava o meu mundo, meu corpo e minhas bonecas. Cortava papel, braço, e cabelo. Fugia e amava secretamente todos. Assim como fiz ontem e hoje,a diferença é que minhas pequenas bonecas de plástico deram lugar par algumas bem maiores.

Quando caia à tarde, pensava muitas vezes em incêndios, suicídio, deus e drogas; tudo que de fato era proibido a uma criança. Depois me culpava, e ao som de uma música banal, eu rezava e chorava ser a maldade.

Minha infância foi marcada pela repetição desses acontecimentos, e a culpa tornou-se meu pior pesadelo mas meu pseudo-aliado. A culpa era minha, e porque não dizer que eu gostava de sustentá-la. Bonecas, cabelos, tesoura, brinco, bilhetes, canetas e roupas. Tudo culpa minha.

Gostava de sofrer para ganhar um afago. Mas para diminuir minha culpa, meu sofrimento tinha que ser verdadeiro. E assim fiz e faço. Como um kamikaze não suicida, em uma busca desesperada por qualquer coisa que doa mas não não mate.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Me falta palavras e eu escrevo, me faltam colos e eu corro pr' aqui, me faltaram muitos gestos nessa tarde e eu simplesmente calei.Não há como não me doar quando escrevo, não há como não ter sempre um peso meu nessas frases. Mas hoje eu queria escrever algo que tivesse mais partes suas do que minhas, como se fosse um espécie de libertação, como se seu peso saísse enfim de mim.

És calmo e manso mas explode sempre pelo olhar. Ver tua íris verde-amor se enchendo vagorozamente de vermelho-paixão é tão assustador. Pior do que me afogar nesse teu mar vermelho, é ter como refúgio o nada; quando me desvias o olhar, quando teme, quando foges, quando tremo.
Braços e vidas imóveis. Aos poucos, eu ou as novidades foram te amolecendo, até virar líquido, se desfazendo e fugindo das minhas mãos. Ao comparar as nossas, tua mão se sai tão branca e sem vida a primeira vista, mas percorrendo essas linhas tortas e bem delineadas percebe-se que seu coração bate lá também. Aliás teu coração bate em tudo que é seu, tudo que é nosso, ele bate em mim.



 Percorrer seu lábios, seu rosto e seu olhos que sempre me recebem tão doces, me faz sentir doce também. Gosto de descobrir caminhos no teu corpo frágil e duro, de sentir o gosto da sua paz, de sentir seu ar. Gosto de me divertir nos seus pelôs, e de misturar os meus com os seus. Gosto de poder falar tudo isso e de calar quando envergonho.
Meu colo é teu, e quando me encolho em ti é porque te faço de esconderijo. Afundar no teu peito é meu segundo orgasmo, sentir teu cheiro de gasolina com barriga de filhote e canela, que pra mim sempre foi teu perfume, é o que realmente me impede de ir embora.
Adoro quando teus olhos se fazem pedintes e sinceros. Gosto da tua espontâneadade quando me toca, quando desvenda meu corpo. Tua curiosidade em relação ao mim e ao mundo foi o que de fato me fez cair apaixonada. Por isso que amo descobrir junto contigo, mesmo que de vez ou outra machuque.

 Sinto que hoje até mesmo declaração como essa, se torne facilmente mais um pedaço melancólico meu.

domingo, 15 de julho de 2012

" Agarrando os quatro travesseiros, chorando bem baixinho..."

O que acontece é que vez ou outra entre os intervalos de amor de desdém, eu me perco.
Sinto-me só quando estou com você, sinto-me só quando estou de fato sozinha, sinto-me só sempre. Não há mais alegria, me restaram apenas olhos marejados e um corpo mole, pronto pra ser largado.Porém não há em mim nenhum pingo de coragem para cessar essa dor. Você no entanto não teme o fim, e eu por fim, temo você.
Não há saída, fiquei sozinha no meu quarto bege e esses móveis não pararam de gritar. Eu e eles sempre soubemos que seria cansativo essa entregas explosivas, que uma hora ou outra isso tenderia a nos ferir. Eu e o criado mudo,pensativos, parados, calados e beges.
Tua presença não se faz vital, mas é quente e aconchegante. Não há poemas nem calor, não há cartas e nem esperas, só me resta uma melancolia doce que quando transborda me obriga escrever.Pensei que tudo isso seria apenas uma pedrinha, mas abriu-se um buraco no meu peito que aos poucos me engole, engolem minha cama, minha casa.
Então não nos resta mais as eternidades, você sumiu de mim como minhas canetas favoritas. Eu as amei, mas foram embora, eu te amo mas você se perdeu. E dói, me causa náuseas e eu sempre choro  quentinha e baixinho debaixo da coberta, mas eu não procuro nem você nem as canetas, nem ninguém.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sou compulsiva, e muitas vezes me engoli em busca da minha própria saciação.



Morri diversas vezes nesses últimos meses, e penso estar perdendo o chão aos poucos, numa espécie de'' te tiro o chão, mas te dou um afago''. então eu fico.
Sentei numa calçada quente, e morri ali também. Talvez naquele dia tenha perdido minha última parte. As lágrimas corriam no meu rosto mas rápidas que as formiguinhas na parede, e ressalto que a aquela hora tudo me aborrecia.
Havia tanta saudade em minha fala, e tanta incoerência, que nem eu mesmo saberia explicar que formula eu estava pedindo. Queria mesmo uma formula, algo que nos tirasse daquele deserto. Algo que nos aquecesse mais não nos queimasse. Algo que talvez na cegueira da paixão estivéssemos experimentado sem dar valor.
Sinto-me uma devota, que até então nunca soube o sabor de um milagre. Uma devota que questiona mas teima em acreditar que há algo especial que a mantém viva. Talvez não tenha.
Coravámos e nos entristeciámos, mas aquilo não fazia sentindo. Não me sentia bem, sentia o estomago sendo espancado por dentro. Como se as mesmas borboletas que outrora se agitavam ao te ver, morressem uma a uma tentando sair de dentro de mim.
As borboletas acalmaram-se e nossos corações também. Mas sempre depois dessas agitações ficamos quebrados, e custa a conserta, dói. Essas tantas quedas, que por vezes se fazem silenciosas, me destroem, e acredito que a você também. É certo que ás vezes crescemos, mas pra que? Crescemos aonde?
Ainda um pouco cega, ainda um pouco bamba e esperançosa, vejo que insistir nessa nossa história dá-me o sabor da vida. E mesmo que por vezes este se torne amargo.

'' Sinto-me viva, mesmo experimentando a vida somente contigo. ''

sexta-feira, 30 de março de 2012

Os militares e suas roupas camufladas, suas botas pretas de couro amarradas acima do tornozelo. Militares e seus casacos pesados, palavras tortuosas e vidas sem sentindo. Marcham demais, vão em direção do horizonte, rumo ao sol ou em cima do meu coração. Nenhum deles se preocupam, ninguém tem  cautela. Ainda que meu envolotro pareça macio e gostoso de saciar as vontades dos pés, isso me apodrece. 
Aguento, aguento com a honra de quem sirva ao exército. Aguento com a ilusão de uma recompensa utópica, porque sei que mais fácil séria crer em algum deus que me desse rumo.
Ninguém recebe pelas culpas dos meus pecados, mas mesmo assim eu escuto. Sou punida, e não sou pura, desejo as vezes morrer para não enfrentar diálogos com meus militares.
Gente suja que se julga limpa, gente limpa que eu julgo suja. Com a boca cheia de sangue me falam de amor, assim balbucio palavras grudadas umas nas outras e ninguém compreende meu desespero. Matando uns aos outros mas fazendo palestras sobre pró vida, assim dou risada baixinho e de noite choro agarrada ao travesseiro ou no ombro do meu ópio.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Era tarde,e minha cabeça já estava pesada demais para meus ombros suportarem. O chão daquele lugar era irregular e sujo, hávia restos de cigarros e de alma humana. Meu cabelo estava cheirando a fumaça,e meus pés úmidos latejavam num sapato azul escuro.Mesmo no meio de tantas coisas turgidas eu conseguia enxergar clareza o seu olhar.
Meu coração ainda palpita quando lembro da sexta-feira mais longa da minha vida. Não há porém nenhum motivo para ter esses olhos marejados agora.
Sinto sua falta, e talvez o motivo seja esse. Talvez seja por isso que não consigo tirar seus olhos de guia da minha cabeça. Sinto falta dos afagos, de todos nossos pequenos contatos e da sua voz de conforto.
Minha mente volta para aquele lugar paralelo no tempo, e o tempo agora pede colo.

domingo, 11 de março de 2012

Lúcio,
Escrevo-te, lápis em punho, nesta madrugada. Não encontrei caneta? Talvez porque o escrito à lápis sempre possa ser apagado, mudado, (re)editado. Com a vida não tem disso. Ensaio e estreia. Somos meros rascunhos do que planejávamos ser. Personagens de nossos pequenos dramas pessoais. A gente lê tragédia grega e acaba vivendo dramalhão mexicano com requintes de patetismo.
Eu (sim, "lá vem ela com seus eus", imagino sua possível irritação aqui) sempre dei valor demasiado à ausência, porque ela é um lugar de destroços. Titubeio, tropeço numa pedra mal colocada e não há uma mão alí para me amparar. Criança que escondeu-se no armário e os pais não deram falta, durante uma festa. Alguém abre a porta do armário, pergunta por onde estive e me abraça. Faço de conta que foi assim, e dói menos. As melhores cenas da minha vida não aconteceram, mas deveriam.
Não te respondo com o mesmo lirismo, pois tem me faltado poesia no rodo cotidiano. Onde vende lirismo?
Espero-te. Juro com a minha falta de fé em quase tudo que nunca mais te espero. As esperas me fatigam. Respondo-te. Emudeço.
Naquele tempo em que tu e eu éramos "nós", me chamavas de bailarina astuta. Naquele tempo, esqueci de te dizer algo f-u-n-d-a-m-e-n-t-a-l: eu nunca aprendi a dançar tão devagar, pra te acompanhar. Ou talvez tenha dito, e não ouviste meu sussurro. Aparecias mesmo quando eu gritava histericamente, com seu ar professoral de quem viveu mais. Eu, sempre a criança mimada a engolir o choro. No entanto, não vinhas quando eu cantava, num segundo mais feliz.

(Vanessa Souza Moraes in: Cadernos de Luísa)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Não interessa o que passamos, eu quero ir embora. Eu lhe disse, assim que entreguei o último bilhete "Não sou feita para aguentar" e assim fiz. Não suportarei nem mais uma pontada que tenha gosto do desgosto, se me doer eu vou embora.
Quero ficar, mas tenho as malas prontas e um orgulho que pesa mais que meu corpo. E minha matéria, do que mais ela pode ser feita? me construí naquilo que suportei. Não há mais motivos pra tampar rebocos.
Meu corpo se desfaz entrando em estado líquido, na minha cama é que sinto nossas dores.
Eu só preciso de um pouco de carinho e vou embora, uma mão na nunca ou um beijo na testa já me basta...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Luisa perdera o gosto por escrever em diários quando tinha 12 anos, após ser descoberta. Desde de então essa menina que agora usa cabelo curto e repicado escreve em seu corpo suas lembranças. Perdera a vontade de se esconder na terceira gaveta escura do armário. Luisa hoje pinta os olhos e mostra para todo mundo, ou melhor, para quase todo mundo suas pequenas dores diárias.

domingo, 5 de fevereiro de 2012


E as certezas começam a vir assim aos poucos, entre os desencontros e pequenas decepções. Porque afinal, eu havia de ter certeza que é seu sorriso que quero mesmo depois de um dia inteiro de trabalho, suor e dor de cabeça. Heis nossa pequena demência e vicio um do outro.
Eu poderia tentar me articular entre desculpas e pseudo-máscaras, só para que ninguém saiba que estou definitivamente entregue. Não fujo mais.
Caminhos como o seu tendem a me levar pro chão num simples jogo de frases. Mesmo assim eu me entrego, dou-lhe minha vida e alma.
Dessa vez, e somente dessa vez eu não quero mais ser uma flor de plástico.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Menina da pele branca que possui olhos de fundo do mar,


Hoje, eu a tenho e a aceito do jeito que é. Tens a vida em suas mãos e aos poucos pega a vida de quem vive ao seu redor, inclusive a minha. É um amor bonito esse nosso, há quem diga que a amizade é o amor mais puro que existe porque não há fantasia. Bom, quem diz isso não te conhece.
Agradeço por todas nossas trocas, por me levar pro seu mundo do nunca. Somos incrivelmente felizes juntas porque vivemos na terra encantada. Seus olhos anunciam o nosso futuro, seus olhos enxergam um horizonte mais tranquilo, e é por isso que permanecemos vivas e ligadas.
Tenho medo que não caiba mais em mim nosso amor, é tão puro e bonito que tenho medo que ele se perca no tempo, porque afinal vamos enrijecendo. O que eu realmente quero e peço é que a gente não se perca, mesmo com todas as perdas e faltas, mesmos depois de algumas ausências ou choros solitários. Perderemos muitas coisas, mas nunca nossa essência, então eu lhe peço por favor que não deixe isso se perder.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A pagão

Já era tarde e não havia mais luz no bairro nem em Gabriela. Andar por entre as ruas de São Paulo no frio da madrugada não era seguro, mas ela aquela noite ignorou tudo, inclusive sua própria existência.
Temia estar entrando em mais uma de suas crises, crises que se alternavam de compulsões a dores insuportavelmente reais. Questionava-se. Elaborou uma serie de perguntas as quais não sabia a resposta. Gabriela entrara em crise novamente.
Não se lembra como entrou em casa, muito menos como foi parar na cozinha segurando mais um copo gelado. O líquido descia quente por sua garganta e às 5 da madrugada Gabriela entrara em choque.
"Copo gelado, líquido quente. Copo gelado, mundo quente. Corpo gelado, mundo quente." e balbasiando essa frase deitou-se no chão da cozinha, não havia mais vida. Gabriela agora era apenas um copo gelado num chão quente.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Seus olhos são realmente meus agora?

Não há o que temer, mas sempre que te encontro meu coração gela e perco o chão por alguns segundos. Se minha insegurança não transparecesse nos olhos quando falo contigo, tudo seria mais fácil. É que não dá pra acreditar que todo meu esboço da felicidade foi passado a limpo.
Queria escrever mil coisas para que lendo você se sentisse dentro de mim, mas sei que quando escrevo dou voltas e voltas no mesmo lugar. Penso e repenso num jeito o qual consiga passar um fragmento de felicidade para esse papel, não acho maneira.

Posso falar da tua pele e tentar resumir em palavras o desejo que sinto quando a toco. Tentarei usar um exemplo que compare sua boca com qualquer coisa muito linda no céu, ou então tentar decifrar como seus dedos leves me levam pra outro lugar. Mas tudo isso seria inútil.
Posso tentar descrever como seus traços tornam-se angelicais quando sorri ou então como seus olhos ficam pequenos e lindos quando faz isso. Não consigo. Eu me perco por dentro tentando achar uma parte sua.

Você sabe que céu sempre chora quando você vai embora, e quando isso acontece desejo que esteja comigo para além dessas chuvas fortes. Desejo que sejamos fortes. Mas por agora a única coisa que temos é a liberdade em nossas mãos. Ou melhor, tenho tudo que é seu e tens tudo que é meu, mas não temos nada.
Tenho medo do cansaço, mas tenho seus lábios agora e é somente isso que importa. Não preciso de prazos, tenho seu cheiro em mim e isso já me basta. Basta acordar ouvindo sua voz sem previsões...


Dure o tempo que você gostar de mim.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

"Você não pode abraçar o mundo..."

Não há mais nenhuma história a ser contada, não há nada mais a ser escrito. Já não existe dor nem amor que me faça ter vontade de expor minha vida novamente. Fim de ciclos me deixam demasiadamente cansada, sinto que meus olhos estão mais triste do que nunca.
Não pertenço a ninguém e não tenho nada guardado em mim, nenhuma jóia delicada que respire.
Porém nesse momento, qualquer brilhante tende a ser minha jóia. Por isso trago pedras comigo, não só as mais brilhantes mas qualquer tipo de pedra. Coloco-as no meu bolso, e pesa... pesa...
Meu bolso sempre rasga, assim como meu coração faz semanalmente, não tem jeito e eu o concerto. Nunca fica inteiro ou perfeito, sempre torto e faltando um pedaço. É pesado.
No fundo eu sei que não há mais fundo, e de tanto querer ter eu acabo sem nada. No fundo, só me sobram as pedras cinzas e pesadas, no fundo... não sobra nada.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

"Você vive em um mundo próprio, em uma realidade alternativa."

Não foi o primeiro nem o último tapa na cara que recebi essa noite, mas talvez um dos mais doloridos. Cabeça de criança, olhos de menina num corpo de mulher, foi assim que ele me descreveu hoje, pediu desculpas caso a sinceridade dele soasse como uma música cafona sertaneja e rimos, rimos muito pois no fundo do riso havia um toque de desespero e solidão.
Reclamei a noite inteira, e ele não tirava os olhos de mim, por fim prometeu ser sincero e segurado nas minhas mãos ele disparou palavra por palavra como se fossem tiros, desaminei, caí em órbita e fiquei por alguns minutos ou talvez horas, só ele saberá dizer
ao certo. 
Eu não queria ouvir tudo aquilo mas eu precisava, segurei firme na cadeira enquanto tudo em volta girava, enfim, voltei pra mim. Pedi pra que parasse, ele insistiu que não mas suavemente foi deixando de me esmigalhar.
"Você foi tola, é uma tola e foi isso que aconteceu." Dessa forma ele tentou me convencer que todos minhas lagrimas se resumiam a   "não viver o mundo real". Eu sabia que essa era a verdade, e entendi o que ele tentou me explicar mesmo querendo não entender, mas aqui não há uma saída como no mundo de Alice. Ou eu vivo ou arranco meu coração. Ele nem ninguém vai entender isso sem antes descobrir que o brilho de cada estrela somos nós que inventamos.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Por que os amores, ou melhor, os falsos amores os quais denominamos de paixões não são mais passiveis? Tento observar a linha tênue entre paixão e auto-destruição, às vezes me escapa uma ou outra diferença mas em  resumo ambas não se fazem discretas, por fora talvez sim, mas por dentro agem como tempestades e quebram portas e janelas sempre.
Porém desejo não ser reconstruída novamente, pois toda mudança e remanejamento de móveis deixam algo se perder ou escarpar e nunca mais se recupera. Por isso, peço com todas minhas forças que esse falso amor não arranque minha alma, peço com os olhos, que seja passivo e paciente e tenho esperanças que  me  entenda.
Todo esse encantamento e todas essas palavras tendem a me derrubar, e sei que não durará pra sempre por isso meus pés se fixam no chão e me coração bambeia de um lado pro outro.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ainda mastigando um pedaço de carne mal passada levantei da mesa aborrecida, vivia num cubículo cheio de animais quase  racionais, me aborrecia sempre, com tudo. A presença do mais velho me incomodava, sua mastigação era o som mais irritante que existia, e ecoava pela sala inteira. 
Não há mais amor, eu bem que tentei convencê-la  porém seus olhos se entristeciam e salgavam sempre. Desisti. Seus gritos finalmente cessaram mas sua dor não, ela acumulou-se no seus ombros frágeis e tortos. Alguém me disse que ela já nascerá torta, e predestinada ao erro, hei de discordar pois Nena nunca soube a verdade, escolheu ,talvez inconscientemente, mas escolheu o caminho da dor.
Essa mistura de ghost, deu a luz a solidão. Daí vem tanto aborrecimento, vivia sozinha, tinha amigos mas era só. Almejava amar, mas eu canso-me de tanto erros e desisto, era torta, ainda sou...
 Culpo meus pais e todo esse ambiente de aborrecimento. A dor está dentro de mim, dentro da carne que mastigo, eu a sinto porém continuo mastigando até desfarelar. Sou sólida, fiquei sólida, mas choro por horas pra ver se me desfaço. No fundo sei que se existe culpa pertence a mim, e cabe no meu bolso, e que isso é só mais solavanco na minha vida. Ela sabe, ele sabe, mas eu os culpo.Assim me pesa menos em mim. Sou torta, nasci da solidão, é justificável tanto egoismo.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Querido, talvez já seja tarde demais, mas há uma coisa que eu queria te falar e já faz algum tempo. Às vezes, ou melhor, quase sempre que falo contigo eu desejo secretamente porém de coração, que sua cabeça exploda em mil pedaços. É isso.